Napoleão continua em cartaz nas salas de cinema brasileiras. Com uma bilheteria global de US$ 136,6 milhões até agora, o filme histórico teve o fim de semana de estreia mais lucrativo de um filme de Ridley Scott nos últimos 13 anos. O roteirista, David Scarpa, conversou com Anne Thompson, do Indiewire, e contou sobre o processo de escrita do roteiro épico.

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Napoleão © Apple

Napoleão e Josephine

David Scarpa já havia trabalhado com o diretor britânico, Ridley Scott, em Todo o Dinheiro do Mundo, portanto a parceria de Napoleão não foi um território desconhecido. Quando recebeu a proposta de escrever um roteiro sobre a controversa figura do imperador francês, Scarpa foi atrás de ampliar o seu conhecimento. A conclusão: traduzir a história de Napoleão Bonaparte para o cinema trata-se de uma tarefa ingrata, mais do que isso, não pode ser feito.

"Era quase uma história impossível de se contar, em termos da simples extensão do que Napoleão havia feito e da sua influência na história europeia, e 45 batalhas travadas e essencialmente a escrita do Código Napoleônico, que é a base de grande parte da sociedade do continente europeu. Então seria quase impossível contar a versão definitiva dessa história em duas horas e meia." Scarpa teve que escolher uma perspectiva específica para abordar a trajetória do general: "O que mais me intrigou foi uma pequena vinheta no livro, sobre o relacionamento com Josephine, sua esposa."

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O filme explora a figura de Napoleão com todas as suas complexidades e contradições, como um estrategista genial no campo de batalha e, ao mesmo tempo, um homem inapto em suas relações pessoais. A sua aspiração bélica de conquista se entrelaça com a sua necessidade de conquistar o amor de sua esposa (que inclusive chegou a traí-lo logo após o casamento). "Como muitas figuras narcisistas, ele era impulsionado pela insegurança. E ele estava empenhado em conquistá-la (Josephine). A sua ligação emocional com ela era tanto parte daquela insegurança quanto o seu desejo de conquistar a Europa."

As batalhas retratadas no filme

Claro que das 45 batalhas travadas, apenas as mais cruciais seriam selecionadas para a produção. Scarpa confessou que muitas foram descartadas nos vários tratamentos do roteiro e nunca chegaram a ser filmadas. A versão final do épico conta com três batalhas: Toulon, Austerlitz e Waterloo, cada uma delas representando três diferentes pontos no desenvolvimento psicológico de Napoleão. "Nós começamos com Toulon, o momento em que ele se torna uma estrela. E então vamos para Austerlitz, que é sem dúvida o ponto alto de sua genialidade, por assim dizer, mas também, em um outro sentido, um ponto moral baixo. Você sente isso com a performance de Joaquin (Phoenix). E então há Waterloo, que se tornou quase um sinônimo do momento onde tudo vai por água abaixo."

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A ambivalência de Napoleão

David Scarpa conta que, ao escrever para Ridley Scott, ainda não tinha um posicionamento claro sobre Napoleão. "Mais do que qualquer outra figura histórica, há uma discussão até hoje se esse homem era um monstro, ou um gênio." A obra faz jus à sua ambivalência. "Uma coisa impressionante é, ele é o clássico exemplo do ditador benevolente. Há um fascínio perigoso nisso, como se ele fosse a única figura militar que vai aparecer e resolver tudo (...) E, no entanto, ele nunca foi realmente um déspota. No final ele nem matou o homem que teve um caso com a sua esposa. Havia essa comédia sexual francesa completamente torturante acontecendo no meio de tudo isso. E que evidenciou o quão incrivelmente pleno e capaz ele era e também o quão pessoalmente inapto ele era ao mesmo tempo."