Um novo roteiro aguarda a direção de Martin Scorsese este ano e, como prometido, a trama gira em torno da figura de Jesus. Em 2023, o diretor já havia comentado sobre a sua vontade de desenvolver um projeto deste gênero, após um encontro com o Papa Francisco durante o Global Aesthetics of the Catholic Imagination, em maio. Na época, Scorsese declarou: "Eu respondi ao apelo do Papa aos artistas da única forma que eu sei: imaginando e escrevendo um roteiro para um filme sobre Jesus." Agora, em conversa com o Los Angeles Times, o autor revela que o longa se trata de uma adaptação do livro A Life of Jesus (Uma Vida de Jesus), do escritor japonês Shūsaku Endō.

Segundo o próprio Scorsese, seu roteiro inédito promete um filme de duração reduzida - muito longe das três horas e meia de Assassinos da Lua das Flores - girando em torno de 80 minutos. O diretor escreveu o longa ao lado do crítico e cineasta Kent Jones.

"Nesse momento, 'religião', você diz essa palavra e todo mundo fica em pé de guerra, porque ela falhou em tantos sentidos.", disse o diretor. "Mas isso não significa necessariamente que o impulso inicial estava errado. Vamos voltar. Vamos só pensar sobre isso. Você pode rejeitá-la. Mas pode fazer uma diferença no modo como você vive a sua vida - mesmo rejeitando-a. Não descarte-a de imediato. É sobre isso que estou falando. E eu digo isso como alguém que vai fazer 81 anos daqui a alguns dias."

Silêncio

Não é a primeira vez que Scorsese inspira-se em uma obra de Endō, em 2016 o diretor lançou o aclamado Silêncio, que conta com Andrew Garfield, Adam Driver e Liam Neeson no elenco. O longa também gira em torno de uma temática religiosa, abordando a jornada de dois padres jesuítas portugueses que, no século XVII, partem rumo ao Japão para resgatar o seu mentor, cujos rumores denunciam sua abdicação da Igreja. Shūsaku Endō é justamente conhecido como um autor de perspectiva fora do comum por ser um japonês de fé católica.

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Silêncio © Paramount Pictures

A religião e Scorsese

Dilemas envolvendo a fé e a religião perpassam toda a filmografia de Scorsese que, com adaptação de A Life of Jesus, busca continuar suas reflexões. "Estou tentando encontrar uma nova maneira de fazê-la mais acessível e tirar o ônus negativo (sic) do que tem sido associado com a religião organizada."

"Eu tentei encontrar isso com Kundun e com a A Última Tentação de Cristo, até com Gangues de Nova York, em um certo sentido, maneiras de entrar na redenção e na condição humana e como nós lidamos com as coisas negativas dentro de nós.", explicou o diretor. "Será que somos decentes e então aprendemos a ser indecentes? Como podemos mudar? Os outros aceitarão essa mudança? E é realmente, eu acho, o medo de uma sociedade e uma cultura que estão corrompidas pela sua falta de enraizamento na moralidade e na espiritualidade. Não religião. Espiritualidade. Que está negando isso."

The Wager

O novo projeto soma-se ao já anunciado The Wager, filme que o diretor está fazendo com a Apple Original e que é a sua segunda adaptação de uma obra de não-ficção de David Grann (autor de Assassinos da Lua das Flores). Em conversa para o IndieWire, Scorsese explicou que se trata de uma produção muito complicada e sugeriu a possibilidade de até mesmo dividir a direção da obra com outra pessoa.

Leonardo DiCaprio é também produtor executivo de The Wager, e participará do elenco, apesar de Scorsese ainda não ter claro qual papel destinará ao ator. "Eu ainda não tenho certeza. Há muitos bons papeis.", disse.